De que são feitos os dias?
– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias,
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…

Cecília Meireles

Anúncios
Published in: on 21/09/2009 at 16:15  Deixe um comentário  

Obstáculos

obstáculos
à beleza
de todo tipo
em toda parte

não há país
nem paisagem
a voz não soa
a vida à-toa

obstáculos
à beleza
de todo lado
em todo estado

assassinato
sem assinatura
palavra calada
mera rasura

obstáculos
à beleza
pouco ar
em todo lugar

apenas o tédio
gosto médio
ofício sem ossos
oficina do ócio

obstáculos
à beleza
obstáculos
obstáculos

Carlos Ávila

Published in: on 20/09/2009 at 16:15  Deixe um comentário  

Palavra Corpo

a palavra vive no papel
com vírgulas hífens crases reticências
leva uma vida reclusa de carmelita decalça

corpo palavra

o corpo aprender a ler na rua
com manchetes de jornais
jogadas na cara pelo vento
com gírias palavrões
zoando no ouvido
com gritos sussurros
impressos na pele

palavra corpo

a palavra quer sair de si
a palavra quer cair no mundo
a palavra quer soar por aí
a palavra quer ir mais fundo
a palavra funda
a palavra quer
a palavra fala:
– eu quero um corpo !

corpo palavra

o corpo sabe letras com gosto
de carne osso unha e gente
o corpo lê nas entrelinhas
o corpo conhece os sinais
o corpo não mente
o corpo quer dizer o que sabe
o corpo sabe
o corpo quer
o corpo diz:
– fala palavra !!!

palavracorpo corpopalavra

Chacal

Published in: on 19/09/2009 at 16:14  Deixe um comentário  

Psicanálise Caseira

há coisas de sobra que não se dizem
há coisas que sobram no que se diz
nossa miséria é uma alegria de palavras?

Marcos Siscar

Published in: on 18/09/2009 at 16:13  Deixe um comentário  

Em abandono e desamparo

A casa em silêncio, tarde da noite, eu sozinho;
…………… Do balcão
…….. Ouço o borborinho do Isar,
…….. Vejo a clara greta
Misteriosa do rio entre os pinhos, sob um céu de pedra.

Nas ondas do ar voam alguns minúsculos
……………Vagalumes
……..E me pergunto até onde
Vai essa escuridão que me consome.

D. H. Lawrence
(tradução de Aíla de Oliveira Gomes)

Published in: on 17/09/2009 at 16:12  Deixe um comentário  

Nadices

Brinco com a razão
não tenho idade nem sexo
o real é invenção
já foi e continua sendo
nada.
Não perco o senso
sou o que penso.

Ieda Estergilda de Abreu

Published in: on 16/09/2009 at 16:11  Deixe um comentário  

Pavilhão

Muros altos de teu corpo.
Não havia entrada em teu horto.

(Que onda de asas ascendia!
Oh o que ali se passaria!)

Céu claro ou turvo, que importa?
Não havia entrada em tua glória.

(Que arona às vezes subia!
Oh em teus vergéis que haveria?)

Tornaste a ficar fechada.
Não haveria em tua alma entrada!

Juan Ramón Jiménez

Published in: on 15/09/2009 at 16:11  Deixe um comentário  

Elvira de Alvear

Todas las cosastuvo y lentamente
Todas la abandonaron. La hemos visto
Armada de delleza. La mañana
Y el arduo mediodía le mostraron,
Desde su cumbre, los hermosos reinos
De la tierra. La tarde fue borríandolos.
El favor de los astros (la infinita
Y ubicua red de causas) le había dado
La fortuna, que anula las distancias
Como el tapiz del árabe, y confunde
Deseo y posesión, y el don del verso,
Que transforma las penas verdaderas
En una música, un rumor y un símbolo,
Y el fervor, y en la sangre la batalla
de Ituzaingó y el peso de laureles,
Y el goce de perderse en el errante
Río del tiempo (río y laberinto)
Y en los lentos colores de las tardes.
Todas las cosas la dejaron, menos
Una. La generosa cortesía
La acompañó hasta el fin de su jornada,
Más allá del delirio y del eclipse,
De un modo casi angélico. De Elvira
Lo primero que vi, hace tantos años,
Fue la sonrisa y es también lo último.

Jorge Luis Borges

Published in: on 14/09/2009 at 16:10  Deixe um comentário  

Soneto

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco c’os demais, que só, sisudo.

Gregório de Matos

Published in: on 13/09/2009 at 13:34  Comments (1)  

Quem é quem

Posso dizer: estou pronto
para me dar ao que vier.
Posso errar, mas não por medo
de me ser no que fizer.
Quem me pode responder
que sabe ser, sendo inteiro
fiel e simples, sendo a tudo
que faz e não quer fazer?

Thiago de Mello

Published in: on 12/09/2009 at 10:56  Deixe um comentário