Quem é quem

Posso dizer: estou pronto
para me dar ao que vier.
Posso errar, mas não por medo
de me ser no que fizer.
Quem me pode responder
que sabe ser, sendo inteiro
fiel e simples, sendo a tudo
que faz e não quer fazer?

Thiago de Mello

Published in: on 12/09/2009 at 10:56  Deixe um comentário  

Narciso cego

Tudo o que de mim se perde
acrescenta-se ao que sou.
Contudo, me desconheço.
Pelas minhas cercanias
passeio – não me frequento.

Por sobre fonte erma e esquiva
flutua-me, íntegra, a face.
Mas nunca me vejo: e sigo
com face mal disfarçada.
Oh que amargo é o não poder
rosto a rosto contemplar
aquilo que ignoto sou;
distinguir até que ponto
sou eu mesmo que me levo
ou se um nume irrevelável
que (para ser) vem morar
comigo, dentro de mim,
mas me abandona se rolo
pelo declives do mundo.

Desfaço-me do que sonho:
faço-me sonho de alguém
oculto. Talves em Deus
sonhe comigo, cobice
o que guardo e nunca usei.

Cego assim, não me decifro.
E o imaginar-se sonhado
não me completa: a ganância
de ser-me inteiro prossegue.
E pairo – calado pânico –
entre o sonho e o sonhador.

Thiago de Mello

Published in: on 16/07/2009 at 23:19  Deixe um comentário  

Fio de vida

Já fiz mais do que podia
Nem sei como foi que fiz.
Muita vez nem quis a vida
a vida foi quem me quis.

Para me ter como servo?
Para acender um tição
na frágua da indiferença?
Para abrir um coração

no fosso da inteligência?
Não sei, nunca vou saber.
Sei que de tanto me ter,
acabei amando a vida.

Vida que anda por um fio,
diz quem sabe. Pode andar,
contanto (vida é milagre)
que bem cumprido o meu fio.

Thiago de Mello

Published in: on 26/05/2009 at 23:59  Deixe um comentário