Basta de ser o outro

Basta de ser o outro…
O herdeiro da terra,
O neto de seus avós!
Basta de ser
O que leu
E o que ouviu…
À terra devolvo
O cálcio, o ferro, o fósforo;
À núvem devolvo a água rubra,
Aos mortos,
As angústias herdadas,
Aos vivos
Os gestos e as palavras recebidas…
Basta de ser o outro,
Colcha de retalhos alheios,
Cobrindo um frio verdadeiro.

Paulo Bonfim

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Published in: on 06/09/2009 at 19:53  Deixe um comentário  

Cantiga do Desencontro

Onde estou que não me encontro
Caminho que já não sinto,
Eco de vozes distantes
Flutuando no labirinto?
Onde deixei meu olhar
Repleto de águas e rastros,
Onde a lama se confunde
Com o silêncio dos astros?
Onde estou que não me encontro
Entre esperanças antigas,
Gesto perdido de sombras,
Lábio gasto de cantigas?
Onde larguei a inocência,
A voz, o sonho, a distância,
Se os manacás reflorescem
Além dos muros da infância!

Paulo Bonfim

Published in: on 26/06/2009 at 0:39  Deixe um comentário  

Outro serei amanhã

Outro serei amanhã
Quando o silêncio pousar
Na rosa branca dos ventos
Rosa de espuma e luar.
Outro serei, quando as aves
Voltarem da tempestade,
Trazendo a luzir na treva
Sementes de eternidade.
Outro serei, quando a noite,
Como nunca, de mansinho,
Vier espreitar-me os passos,
Junto à incerteza e ao caminho.
Outro serei amanhã
E entre dois esquecimentos
Levarei meu sorriso
E a rosa dos ventos.

Paulo Bonfim

Published in: on 05/06/2009 at 23:59  Deixe um comentário  

Canção – De Poemas esparsos

A esta hora da noite
Não há lugar que me abrigue.
Os fios foram cortados,
E o telefone de estrelas
Repousa  na cabeceira
Do horizonte em que me deito.
A chuva molha-me ao longe,
Enquanto enxugo as idéias,
Sinto que o frio me segue,
Escrevendo em minha pele
Palavras arrepiadas…
A esta hora da noite
Só mesmo a pressa do nada,
Brincando de eternidade.

Paulo Bonfim

Published in: on 04/05/2009 at 22:23  Comments (1)  

Soneto I – de Transfiguração

Venho de longe, trago o pensamento
Banhado em velhos sais e maresias;
Arrasto velas rotas pelo vento
E mastros carregados de agonias.

Provenho desses mares esquecidos
Nos roteiros de há muito abandonados
E trago na retina diluídos
Os misteriosos portos não tocados.

Retenho dentro da alma, preso à quilha
Todo um mar de sargaços e de vozes,
E ainda procuro no horizonte a ilha

Onde sonham morrer os albatrozes…
Venho de longe a contornar a esmo,
O cabo das tormentas de mim mesmo.

Paulo Bonfim

Published in: on 27/03/2009 at 8:07  Deixe um comentário