De que são feitos os dias?
– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias,
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…

Cecília Meireles

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Published in: on 21/09/2009 at 16:15  Deixe um comentário  

Canção

Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo…
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo…

Cecília Meireles

Published in: on 26/08/2009 at 16:31  Deixe um comentário  

Reinvenção

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas…
Ah! tudo bolhas
que vêm de fundas piscinas
de ilusionismo… – mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projet0-me por espaços
cheios de tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço…
Só – no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só – na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Cecília Meireles

Published in: on 06/08/2009 at 0:00  Deixe um comentário  

Rimance

Por que me destes um corpo,
se estava tão descansada,
nisso que é talvez o Todo,
mas se parece tanto o Nada.

Desde então andei perdida,
pois meu corpo não bastava,
– meu corpo não me servia
senão para ser escrava…

De longe vinham guerreiros,
de longe vinham soldados.
Eu, com muitos ferimentos
e os meus dois braços atados…

Uma lágrima floria
no meio da sanha brava.
Era a voz da minha vida
que de longe vos chamava.

Que chamava e que dizia:
“Levai-me destas estradas,
que ando perdida e sozinha,
com as mãos inutilizadas!

Deixai-me estar onde quero,
no vosso doce regaço,
com vosso coração perto
do meu, no mesmo compasso,

enquanto andam as estrelas
na curva dos seus bailados,
e ao longe nuvens e ventos
galopam, enamorados,

e o mar e a terra sombrios
sofrem no silente espaço,
porque os humanos suspiros
não vêm ao vosso regaço!”

Estas coisas vos dizia.
Estas coisas vos rogava.
Mas neste corpo prendida
minha alma continuava…

Cecília Meireles

Published in: on 12/07/2009 at 23:59  Deixe um comentário  

Canção excêntrica

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projeto-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço
– saudosa do que não faço,
– do que faço, arrependida.

Cecília Meireles

Published in: on 09/06/2009 at 11:15  Deixe um comentário  

Retrato

Eu não tinha este rosto hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem lábio amargo

Eu não tinha estas mãos sem forças,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
A minha face?

Cecília Meireles

Published in: on 19/05/2009 at 23:59  Comments (1)  

Cânticos – IX

Os teus ouvidos estão enganados.
E os teus olhos.
E as tuas mãos.
E a tua boca anda mentindo
Enganada pelos teus sentidos.
Faze silêncio no teu corpo.
E escuta-te.
Há uma verdade silenciosa dentro de ti.
A verdade sem palavras.
Que procuras inutilmente,
Há tanto tempo,
Pelo teu corpo, que enlouqueceu.

Cecília Meireles

Por uma pausa, por um minuto de silêncio no corpo, antes que ele se perca de vez.
Published in: on 18/04/2009 at 23:17  Comments (1)  

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo ne tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou se passo.

Sei que canto. E a canção  é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.

Cecília Meireles

Published in: on 23/03/2009 at 8:12  Comments (2)