sozinho com todo mundo

a carne cobre os ossos
e colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homem bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.

de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.

ninguém nunca encontra
o par ideal.

as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam

nada mais
se completa.

Charles Bukowski
(tradução de Pedro Gonzaga)

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Published in: on 30/09/2009 at 8:21  Comments (2)  

Barbarola

Hoje suja
a vida ainda apetece
e um fio de luz imunda me tece
enlaça ao sol meus olhos fechados
vermelhos inchados
ainda boiando no pântano da noite.
O mundo visível. Um clarão terrível.
Já em fogo o dia me recebe
com um sopro indiferente.
Com sua horda bárbara de ruidos,
risos, rezas, rosnada realidade.
Penso em vencer a repugnância
e beijar fundo a sua boca aberta.
Penso em navegar pelas margens de sua luz
e outra vez vestir a malha do sono.
Penso em ti. Penso em mim.
Um fragmento de carne pulsante
em forma de coração
coberto de erva e treva.
Luz, alegria: agora tudo apenas
fosca memória tilintante.
Sem mais, comunico sem pesar
que o projeto Eudoro Augusto
não é viável neste momento.

Eudoro Augusto

Published in: on 29/09/2009 at 16:21  Deixe um comentário  

Eu sei quando corro perigo.
É quando convido
provoco
desafio
instigo
incito
estimulo
espicaço
faço pirraça.
E não me controlo
nem sou razoável.
É quando estou viva.

Mariza Tavares

Published in: on 28/09/2009 at 16:20  Deixe um comentário  

Estepe

Abro o caderno de telefones
à procura de um nome.
Se o sexo minimamente afetuoso não estiver disponível
opta-se por um ato único.
Whatever.
Importa apenas o sono tranquilo.
Importa apenas aplacar a angústia
preencher o corpo até a ânsia.
Amanhã haverá mais possibilidades.

Mariza Tavares

Published in: on 27/09/2009 at 16:19  Deixe um comentário  

Você gosta de mim?
Não goste, não.
Se gostar, não vou corresponder.
Ou vou sair com você e com seu melhor amigo.
Só pra ter certeza do quanto você e seu amigo
gostam de mim.
Não é questão de alma, e sim de matemática.
E se você não gostar de mim, vou me desdobrar
pra saber do que você gosta e como posso ser
indispensável.
E quando descobrir esta variável sairei com você e
com seu amigo.
Não é questão de alma, e sim de matemática.

Mariza Tavares

Published in: on 26/09/2009 at 16:19  Deixe um comentário  

Cantares do sem nome e de partidas – I

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

Hilda Hilst

Published in: on 25/09/2009 at 16:18  Deixe um comentário  

Noturno

Não sou o que te quer. Sou o que desce
a ti, veia por veia, e se derrama
à cata de si mesmo e do que é chama
e em cinza se reúne e se arrefece.
Anoitece contigo. E me anoitece
o lume do que é findo e me reclama.
Abro as mãos no obscuro. Toco a trama
que lacuna a lacuna amor se tece.
Repousa em ti o espanto que em mim dói,
norturno. E te revolvo. E estás pousada,
pomba de pura sombra que me rói.
E mordo teu silêncio corrosivo,
chupo o que flui, amor, sei que estou vivo
e sou teu salto em mim, suspenso em nada.

Bruno Tolentino

Published in: on 24/09/2009 at 16:18  Deixe um comentário  

Balada

Os anjos são
livres.

Podemos sofrer
podemos viver
o acontecer
único

– os anjos são
livres –

podemos morrer
inocentemente

– e os anjos são
livres
até da inocência.

Orides Fontela

Published in: on 23/09/2009 at 16:17  Deixe um comentário  

Matinas

Alegra-me este setembro
com rosto de agosto:
céu plúmbeo ventos arados
algumas chuvas crescendo
figos úmidos e brandos e afáveis
mais estes insetos em bonança
gordos gatos.

Deus sorri
e deslocam-se ângulos
presenças
estados de espírito.
Renascem lembranças.

No corpo
o pássaro da pele
emplumado canta.

Neide Archanjo

Published in: on 22/09/2009 at 16:16  Deixe um comentário  

De que são feitos os dias?
– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias,
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…

Cecília Meireles

Published in: on 21/09/2009 at 16:15  Deixe um comentário