Para quê?!

Tudo é  vaidade neste mundo vão…
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, esta canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!…

Beijos de amor! Pra quê? ! … Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!…

Florbela Espanca

Published in: on 31/08/2009 at 16:49  Comments (4)  

Tudo muda

Tudo muda. De novo começar
podes, com o último alento.
O que acontece, porém, fica acontecido: e
a água que pões no vinho, não podes mais
separar.

O que acontece, fica acontecido: a água
que pões no vinho, não podes
mais separar. Porém,
tudo muda: com o último alento podes
de novo começar.

Bertold Brecht

Precisei de um alemão para sacar que a água posta no vinho não se pode mais separar. Ainda bem que sempre dá pra recomeçar. Pena que isso não adianta muito se for para continuar estragando o vinho sempre.
Published in: on 30/08/2009 at 23:09  Comments (5)  

Do desejo – III

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

Hilda Hilst

À luz do amanhecer. À luz do amanhecer.
Published in: on 29/08/2009 at 2:02  Deixe um comentário  

Culpado

foi mal lhe mal
tratei
como um tratante

mal educado
muito infeliz
pouco elegante

espero que
você me dê
mais uma chance

serei atento
a seu desejo
daqui em diante

Chacal

Peço desculpas pela overdose de poemas do Chacal nessa semana. Este é dedicado àqueles que não sabem apreciar a tensão sexual que se cria com uma pequena e inofensiva troca de farpas.
Published in: on 28/08/2009 at 13:30  Comments (7)  

Eu vi a linda Jônia…

Eu vi a linda Jônia e, namorado
fiz logo eterno voto de querê-la;
mas vi depois a Nise, e é tão bela
que merece igualmente o meu cuidado.

A qual escolherei, se neste estado
eu não sei distinguir esta daquela?
Se Nise agora vir, morro por ela,
se Jônia vir aqui, vivo abrasado.

Mas ah! que esta me despreza, amante,
pois sabe que estou preso em outros braços,
e aquela não me quer, por inconstante.

Vem, Cupido, soltar-me desses laços:
ou faze desses dois um só semblante,
ou divide o meu peito em dois pedaços!

Alvarenga Peixoto

Published in: on 27/08/2009 at 16:40  Deixe um comentário  

Canção

Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo…
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo…

Cecília Meireles

Published in: on 26/08/2009 at 16:31  Deixe um comentário  

Primeiro eu quero falar de amor

meu amor se esparrama na grama
meu amor se esparrama na cama
meu amor se espreguiça
meu amor deita e rola no planeta

Chacal

Published in: on 25/08/2009 at 1:16  Comments (10)  

Forma quase uma fome

Há uma forma exata
de se dizer amor

mas ninguém sabe dela
senão que a desconhece.

e que tenta solvê-la.
Poema beijo encontro

tudo isso é a só busca
ansiosa e desesperada

dessa forma esperada
de se dizer amor.

Forma quase uma fome
que nnao morre nem come.

Renata Pallotini

Published in: on 24/08/2009 at 23:11  Deixe um comentário  

Cá, entre nós

Você me olhou. Só que isso,
você já sabe, me deixa gago
.                               embaraçado.
Feito a meada de que perco o fio.
Quanto mais encontrar agora a frase certa
e alerta
para tocar-te, sem perder o humor. Como acertar
o gesto, o dito que entre nós estabeleça
aquela transparência de corações
que seria algo tão bom, tão oportuno
neste momento, para algum
dos dois?

Rubens Rodrigues Torres Filho

Published in: on 23/08/2009 at 20:09  Deixe um comentário  

Valido até

Acontece
com certas
idéias

filmes
passaportes
remédios

homens
alimentos
critérios

promoções
casamentos
impérios

poemas
contratos
mistérios

carregam
de antemão
o epitáfio:

Augusto Massi

Published in: on 22/08/2009 at 18:08  Comments (2)