Rimance

Por que me destes um corpo,
se estava tão descansada,
nisso que é talvez o Todo,
mas se parece tanto o Nada.

Desde então andei perdida,
pois meu corpo não bastava,
– meu corpo não me servia
senão para ser escrava…

De longe vinham guerreiros,
de longe vinham soldados.
Eu, com muitos ferimentos
e os meus dois braços atados…

Uma lágrima floria
no meio da sanha brava.
Era a voz da minha vida
que de longe vos chamava.

Que chamava e que dizia:
“Levai-me destas estradas,
que ando perdida e sozinha,
com as mãos inutilizadas!

Deixai-me estar onde quero,
no vosso doce regaço,
com vosso coração perto
do meu, no mesmo compasso,

enquanto andam as estrelas
na curva dos seus bailados,
e ao longe nuvens e ventos
galopam, enamorados,

e o mar e a terra sombrios
sofrem no silente espaço,
porque os humanos suspiros
não vêm ao vosso regaço!”

Estas coisas vos dizia.
Estas coisas vos rogava.
Mas neste corpo prendida
minha alma continuava…

Cecília Meireles

Published in: on 12/07/2009 at 23:59  Deixe um comentário  

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