Do meu

Eu não sei que perigos há na noite
sei apenas que tenho a alma serena.
Não sei que mortes ou lendas narra o vento
nem mesmo a viagem do tempo.
Sei da minha casa aberta
e a pequena paz que frequento.
Das aves que eu perdi me esqueço
outras que não terei invento.

Fernando Fortes

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Published in: on 30/06/2009 at 22:39  Deixe um comentário  

Soneto Beletrista

Na história da poesia brasileira
Gregório, como um sátiro, desponta.
Dirceu canta Marília, que não conta.
Gonçalves Dias trepa na palmeira.

Rebelo é Zé, não tem eira nem beira.
Escravo, ao Castro Alves, vira afronta.
Bilac eleva e leva a lavra em conta.
Delfino é preso ao pé, mas mal o cheira.

Augustos são vanguarda: Alguém os siga!
Oswald e Mário apupam: Pau no apuro!
Drummond, Bandeira, ombreiam, bons de briga.

Cabral é cabra cru, cerebral, duro.
Se Piva quer viver na Grécia antiga,
Mattoso, em trevas, vive no futuro.

Glauco Mattoso

Este é o post numero 100 do brógui. \o/
100 dias postanto (quase) todos os dias!
100 poemas. 53 poetas. 1334 visitas.
Tá bom né?
Published in: on 29/06/2009 at 22:31  Comments (2)  

O outro

só quero
o que não
o que nunca
o inviável
o impossível

não quero
o que já
o que foi
o vencido
o plausível

só quero
o que ainda
o que atiça
o impraticável
o incrível

não quero
o que sim
o que sempre
o sabido
o cabível

eu quero
o outro

Chacal

Published in: on 28/06/2009 at 23:59  Comments (3)  

Desiludido

Por que te hás de aquecer ao sol dessa esperança
nova, que despontou na tua alma ingênua e crente?
Se ela é como sorriso em lábio de criança,
que se há de transformar em pranto, de repente…

A ventura completa, é céu que não se alcança,
mas que a gente vislumbra, além, perpetuamente:
esse céu mentiroso, é um céu que foge e avança,
se é maior ou menor a aspiração da gente.

Sê simples e sê bom, mas não julgues que um dia,
hás de o teu coração, repleto de alegria,
para sempre fechar, como quem fecha um cofre!

Crê que a desilusão é o sonho pelo avesso,
e que só se é feliz, dando-se o mesmo apreço
ao gozo que se goza, e à mágoa que se sofre!

Alceu Wamosy

Déjà vu:
25 de maio de 2009
Published in: on 27/06/2009 at 23:59  Deixe um comentário  

Cantiga do Desencontro

Onde estou que não me encontro
Caminho que já não sinto,
Eco de vozes distantes
Flutuando no labirinto?
Onde deixei meu olhar
Repleto de águas e rastros,
Onde a lama se confunde
Com o silêncio dos astros?
Onde estou que não me encontro
Entre esperanças antigas,
Gesto perdido de sombras,
Lábio gasto de cantigas?
Onde larguei a inocência,
A voz, o sonho, a distância,
Se os manacás reflorescem
Além dos muros da infância!

Paulo Bonfim

Published in: on 26/06/2009 at 0:39  Deixe um comentário  

De Volta

Devagar voltamos,
Com tudo já dito.
Tu me olhas ainda,
Eu já não te fito.

Tu tocas nas flores,
Eu vou beira-rio.
Que modo diverso
O de nós sorrirmos!

A grande lua branca
Em nosso caminho!
A ti ela aquece,
A mim me dá frio.

Juan Ramón Jiménez
(tradução de Manuel Bandeira)

Déjà vu:
15 de junho de 2009
Published in: on 25/06/2009 at 10:17  Comments (1)  

Soneto

Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu

Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida

Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina

E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil?

Ana Crisitina Cesar

Published in: on 24/06/2009 at 17:18  Deixe um comentário  

Ampliação

Construo o poema

peda-
ço por
pedaço

Construo um
pedaço de
mim
em cada poema

Eunice Arruda

Published in: on 23/06/2009 at 22:56  Deixe um comentário  

Enigma

Faço e ninguém me responde
esta perguntinha à-toa:
Como pode o peixe vivo
morrer dentro da Lagoa?

Carlos Drummond de Andrade

Published in: on 22/06/2009 at 23:19  Deixe um comentário  

Poemas portugueses 5

Prometi-me possuí-la muito embora
ela me redimisse ou me cegasse.
Busquei-a na catástrofe da aurora,
e na fonte e no muro onde sua face,

entre a alucinação e a paz sonora
da água e do musgo, solitária nasce.
Mas sempre que me acerco vai-se embora
como se me temesse ou me odiasse.

Assim persigo-a, lúcido e demente.
Se por detrás da tarde transparente
seus pés vislumbro, logo nos desvãos

das nuvens fogem, luminosos e ágeis!
Vocabulário e corpo – deuses frágeis –
eu colho a ausência que me queima as mãos.

Ferreira Gullar

Dedicado à consciência. Ou à busca dela.
Published in: on 21/06/2009 at 23:59  Comments (1)