Nihil

Sem aos outros mentir, vivi meus dias
desditosos por dias bons tomando,
das pessoas alegres me afastando
e rindo às outras mais do que eu sombrias.

Enganava-me assim, não me enganando;
fiz dos passados males alegrias
do meu presente e das melancolias
sempre gozos futuros fui tirando.

Sem ser amado, fui feliz amante;
imaginei-me bom, culpado sendo;
e se chorava, ria ao mesmo instante.

E tanto tempo fui assim vivendo,
de enganar-me tornei-me tão constante,
que hoje nem creio no que estou dizendo.

Guimaraens Passos

Published in: on 31/05/2009 at 20:21  Deixe um comentário  

Tema e voltas

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se nos céus há o lento
Deslizar da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se lá fora o vento
É um canto na noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se agora, ao relento,
Cheira a flor da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se o meu pensamento
É livre na noite?

Manuel Bandeira

Published in: on 30/05/2009 at 23:59  Deixe um comentário  

Ideário (2)

Me espanto, me perco, me acho, me refaço
em qualquer lugar
me largo, me deixo, me entrego, me
desvelo aqui ou lá
me bato, me estrago, me reparto e
despedaço
me sento, me enxergo e considero:
o que que há?
Me enraízo, me escravizo, me divido e
multiplico
em qualquer ar
me esqueço, me comovo, me morro e sou de
novo
em qualquer lugar.

Ieda Estergilda

Published in: on 29/05/2009 at 23:59  Deixe um comentário  

Os desmandamentos – Não morrerás – V, 7

VIIDO

a vida
está me matando

a morte
é que me mantém vivo

Leandro Leite Leocadio

Published in: on 28/05/2009 at 15:51  Comments (1)  

Medida do corpo
espaço concedido
vida concedida
na medida
deste espaço.

Beatriz Luz
(tradução de Adolfo Montejo Navas)

Published in: on 27/05/2009 at 23:59  Deixe um comentário  

Fio de vida

Já fiz mais do que podia
Nem sei como foi que fiz.
Muita vez nem quis a vida
a vida foi quem me quis.

Para me ter como servo?
Para acender um tição
na frágua da indiferença?
Para abrir um coração

no fosso da inteligência?
Não sei, nunca vou saber.
Sei que de tanto me ter,
acabei amando a vida.

Vida que anda por um fio,
diz quem sabe. Pode andar,
contanto (vida é milagre)
que bem cumprido o meu fio.

Thiago de Mello

Published in: on 26/05/2009 at 23:59  Deixe um comentário  

Retribuição

Cada minuto de satisfação
Em tremores de angústia é retribuido,
Na mesma exata proporção
Do êxtase fruído…

No escambo de cada hora entesourada
– Parca ração dos anos –
Vinténs amargamente regateados,
Cofres de pranto extravasando…

Emily Dickinson
(tradução de Olívia Krähenbühl)

.

Compensation

For each ecstatic instant
We must an anguish pay
In keen and quivering ratio
To the ecstasy.

For each beloved hour
Sharp pittances of years,
Bitter contested farthings
And coffers heaped with tears.

Emily Dickinson

Published in: on 25/05/2009 at 23:59  Deixe um comentário  

Amigo

Você já me viu nua
De você não escondo
Pra você eu conto
Com você eu contei
Você me dá flagrantes
Sabe aonde ando
Quando caio e fico
Já me viu pedindo
Pra você eu imploro
VOCÊ SABE onde dói
Conhece essa fome
Ampara meus desastres
Você eu persigo
Imperfeitamente amo
Preciso
Você me vê nua

Lígia de Oliveira Leite

Déjà vu:
25 de abril de 2009
Published in: on 24/05/2009 at 23:59  Comments (1)  

Flores do Mal – Spleen e Ideal – III

Elevação

Por sobre os pantanais, os vales orvalhados,
Por sobre o éter e o mar, por sobre o bosque e o monte,
E muito além do sol, muito além do horizonte,
Para além dos confins dos tetos estrelados,

Meu espírito, vais, com toda agilidade,
Como um bom nadador deleitado na onda,
Sulcas alegremente a imensidão redonda,
Levado por indizível voluptuosidade.

Bem longe deves voar destes miasmas tão baços;
Vai te puruficar por um ar superior,
E bebe, como um puro e divino licor,
O claro fogo que enche os límpidos espaços.

E por trás do pesar e dos tédios terrenos
Que gravam de seu peso a existência dolorosa,
Feliz este que pode de asa vigorosa
Lançar-se para os céus lúcidos e serenos!

Aquele cujo pensar, como a andorinha veloz
Rumo ao céu da manhã em vôo ascensional,
Que plana sobre a vida a entender afinal
A linguagem da flor e da matéria sem voz!

Charles Baudelaire
(Tradução de Pietro Nassetti)

.

Élévation

Au-dessus des étangs, au-dessus des vallées,
Des montagnes, des bois, des nuages, des mers,
Par-delà le soleil, par-delà les éthers,
Par-delà les confins des sphères étoilées,

Mon esprit, tu te meus avec agilité,
Et, comme un bon nageur qui se pâme dans l’onde,
Tu sillonnes gaîment l’immensité profonde
Avec une indicible et mâle volupté.

Envole-moi bien loin de ces miasmes morbides,
Va te purifier dans l’air supérieur,
Et bois, comme une pure et divine liqueir,
Le feu clair qui remplit les espaces limpides.

Derrière les ennuis et les vastes chagrins
Qui chargent de leur poids l’existence brumeuse,
Heureux celui qui peut d’une aile vigoureuse
S’enlacer vers les champs lumineux et sereins!

Celui dont les pensers, comme des alouettes,
Vers les cieux le matin prennent un libre essor,
– Qui plane sur la vie et comprend sans effort
Le langage des fleus et des choses muettes!

Charles Baudelaire

Published in: on 23/05/2009 at 23:59  Deixe um comentário  

É de vida que se fala
quando total desejo
nos impregna.
– É de vida que se fala.

Beatriz Luz
(tradução de Adolfo Montejo Navas)

Published in: on 22/05/2009 at 10:05  Deixe um comentário