Flores do Mal – Spleen e Ideal – XXVII

Porias o universo em teu bordel,
mulher impura! O tédio que te faz cruel.
Para treinares os dentes neste jogo singular,
Terás a cada dia um coração a devorar,
Teus olhos a girar assim como farândolas,
De festas de fulgor a imitar as girândolas,
Exibem com insolência uma vã nobreza,
Sem conhecer jamais a lei de sua beleza!

Máquina cega e surda e de um cruel fecundo!
Instrumento a beber todo o sangue do mundo,
Já perdeste o pudor e ao espelho não viste
Tua beleza cada vez mais murcha e triste?
A grandeza de um mal que crês saber tanto
Nunca pôde fazer-te retroceder de espanto,
Na hora em que a natureza em desígnios velados,
De ti se serve, mulher, ó deusa dos pecados,
– A ti, vil animal – para um gênio formar?

Ó grandeza da lama! Ó ignomínia exemplar!

Charles Baudelaire
(Tradução de Pietro Nassetti)

.

Tu mettrais l’univers entier dans ta ruelle,
Femme impure! L’ennui rend ton âme cruelle.
Pour exercer tes dents à ce jeu singulier,
Il te faut chaque jour un cœur au râtelier.
Tes yeux, illuminés ainsi que des boutiques
Et des ifs flamboyant dans les fêtes publiques,
Usent insolemment d’un pouvoir emprunté,
Sans connaître jamais la loi de leur beauté.

Machine aveugle er sourde en cruautés féconte!
Salutaire instrument, buveur du sang du monde,
Comment n’as-tu pas honte, et comment n’as-tu pas
Devant tous les miroirs vu pâlir tes appas?
La grandeur de ce mal où tu te crois savante
Ne t’a donc jamais fait reculer d’épouvante,
Quand la nature, grande en ses desseins cachés,
De toi se sert, ô femme, ô reine des péchés,
– De toi, vil animal – pour pétrir un génie?

O fangeuse grandeur, sublime ignominie!

Charles Baudelaire

Com um agradecimento especial à minha amiga Priscila.
Published in: on 30/04/2009 at 19:43  Deixe um comentário  

Dez chamamentos ao amigo – II

Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida avidez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora

Há tanto tempo sua própria tessitura.

Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.

Hilda Hilst

Published in: on 29/04/2009 at 23:58  Deixe um comentário  

Aviso

Este espaço é reservado
para a poesia que não fiz.
Para o verso previsível
que no fundo me roubaram.
É dedicado ao louco
que na esquina dos pecados
(que na verdade nem conhece)
rosna versos aos que passam
e recebe ingratidão.

Cole aqui o seu panfleto
pedindo respeito aos eleitos,
mais amor ao especialista,
carne para quem saliva…
Escreva e cole com cuidado,
muitos precisam ler.

Este espaço é reservado
para a alegria que não vejo
nos portões das casas baixas
que já não existem mais.
É dedicado aos poucos
que, desejando serem muitos,
se perdem na escuridão
promovida pelos outros,
os que se dizem poder.

Cole aqui a sua foto
com a legenda bem visível:
“Procuro-me — Sumiu
a estrada que me deram
no dia em que nasci
e que eu tinha que trilhar”.

Este espaço é reservado
para que reacendam a luz
que nos olhos cintilava
e que hoje morre de fome.
Cole aqui a sua raiva
mas não deixe de lutar.

Marcelo Batalha

Published in: on 28/04/2009 at 10:38  Comments (1)  

Os parceiros

Sonhar é acordar-se para dentro:
de súbito me vejo em pleno sonho
e no jogo em que todo me concentro
mais uma carta sobre a mesa ponho.

Mais outra! É o jogo atroz do Tudo ou Nada!
E quase que escurece a chama triste…
E, a cada parada uma pancada,
o coração, exausto, ainda insiste.

Insite em quê? Ganhar o quê? De quem?
O meu parceiro… eu vejo que ele tem
um riso silencioso a desenhar-se

numa velha caveira carcomida.
Mas eu bem sei que a morte é seu disfarce…
Como também disfarce é a minha vida!

Mario Quintana

Published in: on 27/04/2009 at 23:27  Deixe um comentário  

Inconstância

Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer…
Atrás do sol dum dia outro a esquecer
As brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim vai me fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também… nem eu sei quando…

Florbela Espanca

Published in: on 26/04/2009 at 7:56  Deixe um comentário  

Ingênuo enleio

Ingênio enleio de surpresa
Sutil afago em meus sentidos,
Foi para mim tua beleza,
A tua voz nos meus ouvidos.

Ao pé de ti, do mal antigo
Meu triste ser convalesceu.
Então me fiz teu grande amigo,
E teu afeto se me deu.

Mas o teu corpo tinha a graça
Das aves… Musical adejo…
Vela no mar que freme e passa…
E assim nasceu o meu desejo.

Depois, momento por momento,
Eu conheci teu coração.
E se mudou meu sentimento
Em doce e grave adoração.

Manuel Bandeira

Published in: on 25/04/2009 at 23:59  Deixe um comentário  

Água-forte

O preto no branco,
O pente na pele:
Pássaro espalmado
No céu quase branco.

Em meio do pente,
A concha bivalve
Num mar de escarlata.
Concha, rosa ou tâmara?

No escuro recesso,
As fontes da vida
A sangrar inuteis
Por duas feridas.

Tudo bem oculto
Sob as aparências
Da água-forte simples:
De face, de flanco,
O preto no branco.

Manuel Bandeira

Dedicado ao meu querido amigo Luiz.
Published in: on 24/04/2009 at 16:37  Comments (1)  

Don Juan – XVIII, 11

Genial não sou – mas, às veses, genioso;
Modesto – mas com certa segurança;
Mutável, sim – mas voluntarioso;
Paciente – sem querer perseverança:
Jovial – mas à lamúria tendencioso;
De boa paz – mas propenso à vingança.
Chego a pensar, se às vezes me concentro;
Sou dois por fora a cada um por dentro.

Byron
(tradução de Décio Pignatari)

Published in: on 23/04/2009 at 23:21  Deixe um comentário  

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos segredos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

Torquato Neto

Published in: on 22/04/2009 at 23:01  Deixe um comentário  

Da preguiça

Suave Preguiça, que do mau-querer
E de tolices mil ao abrigo nos pões…
Por causa tua, quantas más ações
.               Deixei de cometer!

Mario Quintana

Nota: peço desculpas aos leitores pelo atraso na publicação dos poemas, houve um problema técnico com o servidor!
Published in: on 21/04/2009 at 20:40  Deixe um comentário