Imitação de Rilke

Alguém que me espia do fundo da noite
Com olhos imóveis na noite
Me quer.

Alguém que e espia do fundo da noite
(Mulher que me ama, perdida na noite?)
Me chama.

Alguém que me espia do fundo da noite
(És tu, Poesia, velando na noite?)
Me quer.

Alguém que me espia do fundo da noite
(Também chega a morte dos ermos da noite…)
Quem é?

Vinicius de Moraes

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Published in: on 31/03/2009 at 20:47  Deixe um comentário  

O que se é vem à flor?

“Não, não digas nada”    Fernando Pessoa

Melhor seria não dizer-te nada
já que as palavras se frustram, Pessoa
– ai! onde as pás sutis e as virgens lavras
do ver de terna fala entre as criaturas?
Já que as palavras nos frustram, pessoas
perdidas no universo das palavras
– ai tempos de durames sem ternuras! –
melhor seria não dizer-te nada.
Calo. Do teu silêncio aflora a fala
desse verde essencial – cerne, mensagem,
viva raiz-mistério da linguagem.
Na força de não ter dito o que mais cala.

Stella Leonardos

Published in: on 30/03/2009 at 22:56  Deixe um comentário  

Arieta

Chora o meu coração
Como chove na rua;
Que lânguida emoção
Me invade o coração?

Ó frio murmúrio
Nas telhas e no chão!
Para um coração vazio,
Ó aquele murmúrio

Chora não sei que mal
Meu coração cansado.
Um desengano? – Qual!
É sem causa este mal

É a maior dor – dói tanto –
Não se saber por que,
Sem ódio ou amor, no entando,
O coração dói tanto.

Paul Verlaine
(tradução de Guilherme de Almeida)

Published in: on 29/03/2009 at 22:26  Deixe um comentário  

Os mortos de sobrecasaca

Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.

Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.

Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
que rebentava daquelas páginas.

Carlos Drummond de Andrade


Dedicado à Zuleica e Nikole:
que vocês produzão muitas fotografias intoleráveis!
Published in: on 28/03/2009 at 14:05  Deixe um comentário  

Soneto I – de Transfiguração

Venho de longe, trago o pensamento
Banhado em velhos sais e maresias;
Arrasto velas rotas pelo vento
E mastros carregados de agonias.

Provenho desses mares esquecidos
Nos roteiros de há muito abandonados
E trago na retina diluídos
Os misteriosos portos não tocados.

Retenho dentro da alma, preso à quilha
Todo um mar de sargaços e de vozes,
E ainda procuro no horizonte a ilha

Onde sonham morrer os albatrozes…
Venho de longe a contornar a esmo,
O cabo das tormentas de mim mesmo.

Paulo Bonfim

Published in: on 27/03/2009 at 8:07  Deixe um comentário  

Dez Chamamentos ao Amigo – VIII

De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura

Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.

Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem

A enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando

– Fazedor de desgosto –
Que eu te esqueça.

Hilda Hilst

Published in: on 26/03/2009 at 1:04  Deixe um comentário  

Soneto da Madrugada

Pensar que já vivi à sombra escura
Desse ideal de dor, triste ideal
Que acima das paixões do bem e do mal
Colocava a paixão da criatura!

Pensar que essa paixão, flor de amargura
Foi uma desventura sem igual
Uma incapacidade de ternura
Nunca simples e nunca natural!

Pensar que a vida se houve de tal sorte
Com tal zelo e tão íntimo sentido
Que em mim a vida renasceu da morte!

Hoje me libertei, povo oprimido
E por ti viverei meu ódio forte
Nesse misterioso amor perdido

Vinicius de Moraes

Published in: on 25/03/2009 at 2:13  Deixe um comentário  

Um poema de Heine

Vem,  linda peixeirinha,
Trégua aos anzóis e aos remos.
Senta-te aqui comigo,
Mãos dadas conversemos.

Inclina a cabecinha
E não temas assim:
Não te fias do oceano?
Pois fia-te de mim.

Minh’alma, como o oceano,
Tem tufões, correntezas,
E muitas lindas pérolas
Jazem nas profundezas.

Heinrich Heine
(tradução de Manuel Bandeira)

Published in: on 24/03/2009 at 7:24  Deixe um comentário  

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo ne tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou se passo.

Sei que canto. E a canção  é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.

Cecília Meireles

Published in: on 23/03/2009 at 8:12  Comments (2)  

Invitation au voyage

Se cada um de nós, ó vós outros da televisão
– vós que viajais inertes
como defuntos num caixão –
se cada um de vós abrisse um livro de poemas…
faria uma verdadeira viagem…
Num livro de poemas se descobre de tudo, de tudo mesmo!
– Inclusive o amor e outras novidades.

Mario Quintana

Published in: on 22/03/2009 at 10:34  Deixe um comentário