Lisbon Revisited

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafisica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) ­
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul ­ o mesmo da minha infância ­,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Álvaro de Campos

Hoje o poema do dia não é meu, e sim do meu querido irmão, Guilherme.
Published in: on 01/10/2009 at 8:31  Comments (3)  

sozinho com todo mundo

a carne cobre os ossos
e colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homem bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.

de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.

ninguém nunca encontra
o par ideal.

as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam

nada mais
se completa.

Charles Bukowski
(tradução de Pedro Gonzaga)

Published in: on 30/09/2009 at 8:21  Comments (2)  

Barbarola

Hoje suja
a vida ainda apetece
e um fio de luz imunda me tece
enlaça ao sol meus olhos fechados
vermelhos inchados
ainda boiando no pântano da noite.
O mundo visível. Um clarão terrível.
Já em fogo o dia me recebe
com um sopro indiferente.
Com sua horda bárbara de ruidos,
risos, rezas, rosnada realidade.
Penso em vencer a repugnância
e beijar fundo a sua boca aberta.
Penso em navegar pelas margens de sua luz
e outra vez vestir a malha do sono.
Penso em ti. Penso em mim.
Um fragmento de carne pulsante
em forma de coração
coberto de erva e treva.
Luz, alegria: agora tudo apenas
fosca memória tilintante.
Sem mais, comunico sem pesar
que o projeto Eudoro Augusto
não é viável neste momento.

Eudoro Augusto

Published in: on 29/09/2009 at 16:21  Deixe um comentário  

Eu sei quando corro perigo.
É quando convido
provoco
desafio
instigo
incito
estimulo
espicaço
faço pirraça.
E não me controlo
nem sou razoável.
É quando estou viva.

Mariza Tavares

Published in: on 28/09/2009 at 16:20  Deixe um comentário  

Estepe

Abro o caderno de telefones
à procura de um nome.
Se o sexo minimamente afetuoso não estiver disponível
opta-se por um ato único.
Whatever.
Importa apenas o sono tranquilo.
Importa apenas aplacar a angústia
preencher o corpo até a ânsia.
Amanhã haverá mais possibilidades.

Mariza Tavares

Published in: on 27/09/2009 at 16:19  Deixe um comentário  

Você gosta de mim?
Não goste, não.
Se gostar, não vou corresponder.
Ou vou sair com você e com seu melhor amigo.
Só pra ter certeza do quanto você e seu amigo
gostam de mim.
Não é questão de alma, e sim de matemática.
E se você não gostar de mim, vou me desdobrar
pra saber do que você gosta e como posso ser
indispensável.
E quando descobrir esta variável sairei com você e
com seu amigo.
Não é questão de alma, e sim de matemática.

Mariza Tavares

Published in: on 26/09/2009 at 16:19  Deixe um comentário  

Cantares do sem nome e de partidas – I

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

Hilda Hilst

Published in: on 25/09/2009 at 16:18  Deixe um comentário  

Noturno

Não sou o que te quer. Sou o que desce
a ti, veia por veia, e se derrama
à cata de si mesmo e do que é chama
e em cinza se reúne e se arrefece.
Anoitece contigo. E me anoitece
o lume do que é findo e me reclama.
Abro as mãos no obscuro. Toco a trama
que lacuna a lacuna amor se tece.
Repousa em ti o espanto que em mim dói,
norturno. E te revolvo. E estás pousada,
pomba de pura sombra que me rói.
E mordo teu silêncio corrosivo,
chupo o que flui, amor, sei que estou vivo
e sou teu salto em mim, suspenso em nada.

Bruno Tolentino

Published in: on 24/09/2009 at 16:18  Deixe um comentário  

Balada

Os anjos são
livres.

Podemos sofrer
podemos viver
o acontecer
único

- os anjos são
livres -

podemos morrer
inocentemente

- e os anjos são
livres
até da inocência.

Orides Fontela

Published in: on 23/09/2009 at 16:17  Deixe um comentário  

Matinas

Alegra-me este setembro
com rosto de agosto:
céu plúmbeo ventos arados
algumas chuvas crescendo
figos úmidos e brandos e afáveis
mais estes insetos em bonança
gordos gatos.

Deus sorri
e deslocam-se ângulos
presenças
estados de espírito.
Renascem lembranças.

No corpo
o pássaro da pele
emplumado canta.

Neide Archanjo

Published in: on 22/09/2009 at 16:16  Deixe um comentário  
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